Segunda-feira, 1 de Junho de 2009
Quero lá saber dos abstencionistas

Sempre que as eleições se aproximam, lá vem a mesma conversa, geralmente da boca de comentadores de ar grave, como se o futuro da democracia dependesse das suas análises: “não admira que as pessoas se desinteressem da política e se abstenham”. Pois a mim admira-me imenso que alguém se abstenha e sobretudo que veja nisso uma atitude a ser seguida. Eu próprio, em tempos que já lá vão e por circunstâncias próprias da minha opção profissional pelo jornalismo, fui abstencionista, mas nunca andei a maçar ninguém com isso. Nunca recomendei a alguém que fizesse o mesmo e, acima de tudo, nunca achei que a culpa fosse dos políticos, como aquelas crianças malcriadas que fazem birra só porque os adultos não conseguem inventar nada que lhes possa agradar.
Nestas eleições europeias, os cinco principais partidos portugueses têm candidatos conhecedores e dignos (como gosto desta generalização, vou esquecer o inacreditável discurso de Vital Moreira sobre a “roubalheira”, provavelmente sugerido por algum assessor mais excitado…), que defendem pontos de vista muito diversos, que incluem prós e contras tratado de Lisboa, referendos ou punição para quem os prometeu e depois não os fez, federalismo e anti-federalismo e muitas outras questões, sem falar daquelas que dizem mais respeito ao âmbito nacional. E também para já não falar dos pequenos partidos, onde também há várias propostas à disposição dos eleitores.
O problema não será assim de falta de opções, mas antes de um certo “bom tom” que faz com que muita gente mostre repugnância pela “política”, pelos “partidos”, como se vivessem entre tratados de filosofia política e ensaios sobre a Europa e lhe custasse descer ao nível dos políticos, votando neles. Ora o que eu mais vejo entre os abstencionistas, com alguma excepções evidentemente, são preguiçosos e hedonistas de terceira categoria, que não se interessem por nada a não ser o seu pequeno mundo, que se recusam a pensar em algo que fuja ao seu interesse directo, que não abdicam nem que seja por uma hora (para irem votar) da praia, das compras ou da comezaina com os amigos.
É claro que eles têm todo o direito de se absterem, mas porque é que alguém os deve respeitar politicamente? Porque é que os políticos têm que fazer um esforço para lhes agradar? Isso quer dizer que a abstenção vai ser muito elevada? Pois que seja. Já no passado assim foi e isso não tirou legitimidade ao Parlamento Europeu. Se as pessoas podem votar e não querem, o que mais faltava é que nós, os que nos damos ao trabalho de participar na vida política da nossa sociedade e vamos votar, fossemos afectados por quem prefere ficar de fora a dizer mal de tudo, incapaz de mexer uma palha para que as coisas melhorem. E que ainda por cima quer ser “reconhecida” por isso.
 


publicado por Duarte Calvão às 16:00
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3 comentários:
De john a 2 de Junho de 2009 às 11:35
Eu culpo os políticos por (nestas eleições) ser abstencionista. Mas não é por a sua inaptidão para a política.

Já há muito tempo deveria ter sido implementada uma forma de fazer com que os cidadãos não tivessem de regressar à sua área eleitoral para votarem. Ou, por outras palavras: eu não deveria ser obrigado a sair de Lisboa e ir à aldeia lá nos confins do Alentejo para votar.

Assim sendo, inevitavelmente falharei actos eleitorais. Como será o caso destas Europeias (também falhei as anteriores).


De Duarte Calvão a 2 de Junho de 2009 às 12:26
Já lhe ocorreu actualizar o seu recenseamento para a área em que reside?


De john a 2 de Junho de 2009 às 20:21
Já.

Mas considerando que em seis anos a viver em Lisboa já mudei de casa cinco vezes, e em quatro das quais o arrendamento era ilegal (leia-se sem contrato de arrendamento, ou seja, sem comprovativo de residência), não me parece que seja uma solução muito prática.

Tenho o mesmo problema com a Saúde, aliás: já me recusaram atendimento médico em Lisboa (ai o juramento...).

Se amanhã mudasse novamente de casa, então teria de entrar novamente no mundo da burocracia para transferir todos os processos. Não há paciência. Assim espero que as legislativas e as autárquicas calhem numa altura em que eu vá ao Alentejo comprar linguiças (literalmente).



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