Quinta-feira, 4 de Junho de 2009
Uma campanha mais ou menos alegre

Há vidas complicadas e não menos que isso estava a vida desse homem, nem muito velho mas longe de ser novo, batido na política e no partido.

Agarrado aos joelhos, olhava para o ecrã do Magalhães que lhe ofereceram. Uma treta minúscula que mal ligara pela primeira vez lhe berrara que tinha pouca memória, parecia a gozar. No blogue onde postava anonimamente em favor dos chefes vai para uns tempos não sem algum sucesso mas sem o reconhecimento que claramente merecia, começara a escrever mais um post elogioso ao candidato, depois apagara a coisa, agora piscava o cursor.

- O candidato!  - Acendeu um cigarro – O candidato era uma desgraça! Se havia coisas que o irritavam era ninguém aprender com a história, ninguém que agora tivesse força pelo menos, os que sabiam dela há muito que se tinham afastado antes de o serem pela nova vaga de “valores” do partido, pfff. Os novos “valores” eram maus demais, desde ministros que abriram a boca para apoiar o candidato para apenas conseguir piorar as coisas e suscitar a fúria do Grande Chefe, até às sobras do Guterrismo que mostravam com empenho a sua irrelevância. E ele bem tentara avisar aquela gente que a escolha era tonta, já tinha passado por muito para se deslumbrar facilmente, mas a velha guarda a que ele um dia pertencera, assobiara para o ar, eles então é que não se meteriam nisto. E não se meteram, afinal a maioria deles passara boa parte da vida a combater o candidato e não sem terem criado uma profunda aversão ao dito.

O Grande Chefe era muito menos amado do que se supunha fora dali e se o poder era afrodisíaco então os velhotes eram eunucos. Como ele os percebia.

Agora os jornais não ajudavam, a televisão não ajudava, as rádios idem e na blogoesfera a coisa era parecida, sempre contra o poder vigente, dividia-se agora entre a extrema-esquerda e uma massa desorganizada de gente da direita.

Simpáticos ao partido só sobravam uns assessores solícitos e os idiotas úteis, mas nem esses sabiam fazer melhor que repetir os disparates do candidato com excepção de um ou outro que achavam por bem ter “ideias”. Só que ter “ideias” era pior ainda porque ideias daquelas só passavam à força de insultos e ameaças, era vê-los a invadir as caixas de comentários, escrever trinta posts por dia sobre o que escreveu fulano ou sicrana, num exercício que ficava algures entre a pura demagogia e o delírio psicótico, depois ainda lhe mandavam recadinhos todos solícitos e deferentes para mostrar o disparate do dia, melhor seria que o tivessem deixado em paz.

Ainda assim, no meio da lama que se foi atirando podia ser que a coisa resultasse, iam pagar um dia esta maneira de fazer política, disso não tinha dúvidas mas cada coisa a seu tempo. Talvez a abstenção lhes fosse favorável, talvez.

 

O homem olhou para o minúsculo ecrã e fechou o brinquedo com estrondo, respirou fundo e desejou que todos, o Chefe, os ministros, o candidato, os assessores e os idiotas úteis se fossem…lixar.


publicado por Afonso Azevedo Neves às 16:09
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